DE HÍBRIDOS E DE INFERNOS
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu pobre corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
AO SHOPPING CENTER
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liqüidação.
José Paulo Paes
em Prosas seguidas de


3 Comments:
mas isso é muito legal!
é perfeito, adorei.
perfeito para mim, perfeito para meu post e perfeito para esse mundo.
agora me confundi toda (cada um com sua maluquice): esse blog também é seu? você tem quantos blogs? um de prosa, um de poesia, um de notícias, um de cartas, um de bilhetes, etc, etc, etc, cada um com um nome diferente?
uau, se for isso mesmo, adorei.
beijo, lucia
Passeando pelas letras que, bem sei, escolhes com carinho, para perfumar a alma de quem por aqui passa. Gosto demais do J.P.Paes. Dentre os dois poemas, o primeiro me toca mais, mas o segundo também me agrada.
O meu carinho, continua imenso e intacto. Então, deixo esse beijo, imenso e carinhoso...
Míriam Monteiro - Meu Porto
E eu vou cantar a latrina:
Ó que vaso fétido
Que se guarda na latrina
Fátido, Pútrido, falho,
Que leva embora nossa ruína.
Pelos alienados que somos
Os vermes que somos...
Os vermes que nos corroem,
Desses lugares que se detroem.
Mas, também vai pra lá
Toda toda poesia má.
E a má poesia.
Gente que expressa
Em formas vazias
Coisas vazias.
Ahhh Meu Deus!
Que Iria pra latrina,
Esta sua poesia...
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