http://sarapalha.blogspot.com
4.3.05
O Rosa-dos-Ventos termina aqui. A partir de hoje, seu projeto se integra ao do Sarapalha:
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28.2.05
DE HÍBRIDOS E DE INFERNOS
CANÇÃO DO ADOLESCENTE
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu pobre corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
AO SHOPPING CENTER
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liqüidação.
José Paulo Paes
em Prosas seguidas de
Se mais bem olhardes
notareis que as rugas
umas são postiças
outras literárias.
Notareis ainda
o que mais escondo:
a descontinuidade
do meu corpo híbrido.
Quando corto a rua
para me ocultar
as mulheres riem
(sempre tão agudas!)
do meu pobre corpo.
Que força macabra
misturou pedaços
de criança e homem
para me criar?
Se quereis salvar-me
desta anatomia,
batizai-me depressa
com as inefáveis
as assustadoras
águas do mundo.
AO SHOPPING CENTER
Pelos teus círculos
vagamos sem rumo
nós almas penadas
do mundo do consumo.
De elevador ao céu
pela escada ao inferno:
os extremos se tocam
no castigo eterno.
Cada loja é um novo
prego em nossa cruz.
Por mais que compremos
estamos sempre nus
nós que por teus círculos
vagamos sem perdão
à espera (até quando?)
da Grande Liqüidação.
José Paulo Paes
em Prosas seguidas de
Odes Mínimas
25.2.05
INVENÇÃO DE ORFEU
CANTO I
Fundação da Ilha
III
E depois das infensas geografias
e do vento indo e vindo nos rosais
e das pedras dormidas e das ramas
e das aves nos ninhos intencionais
e dos sumos maduros e das chuvas
e das coisas contidas nessas coisas
refletidas nas faces dos espelhos
sete vezes por sete renegados,
reinventamos o mar com seus colombos,
e columbas revoando sobre as ondas,
e as ondas envolvendo o peixe, e o peixe
(ó misterioso ser assinalado),
com linguagem dos livros ignorada;
reinventamos o mar para essa ilha
que possui “cabos-não” a ser dobrados
e terras e brasis com boa aguada
para as naves que vão para o oriente.
E demos esse mar às travessias,
e aos mapas-múndi sempre inacabados;
e criamos o convés e o marinheiro
e em torno ao marinheiro a lenda esquiva
que ele quer povoar com seus selvagens.
Empreendemos com a ajuda dos acasos
as travessias nunca projetadas,
sem roteiros, sem mapas e astrolábios
e sem carta a El-Rei contando a viagem.
Bastam velas e dados de jogar
e o salitre nas vigas e o agiológio,
e a fé ardendo em claro, nas bandeiras.
O mais: A meia quilha entre os naufrágios
que tão bastantes varram os pavores.
O mais: Esse farol com o feixe largo
que tão unido varre a embarcação.
Eis o mar: era morto e renasceu.
Eis o mar: era pródigo e o encontrei.
Sua voz? Ó que voz convalescida!
Que lamúrias tão fortes nessas gáveas!
Que coqueiros gemendo em suas palmas!
Que chegar de luares e de redes!
Contemos uma história. Mas que história?
A história mal-dormida de uma viagem.
Jorge de Lima
em Invenção de Orfeu
Fundação da Ilha
III
E depois das infensas geografias
e do vento indo e vindo nos rosais
e das pedras dormidas e das ramas
e das aves nos ninhos intencionais
e dos sumos maduros e das chuvas
e das coisas contidas nessas coisas
refletidas nas faces dos espelhos
sete vezes por sete renegados,
reinventamos o mar com seus colombos,
e columbas revoando sobre as ondas,
e as ondas envolvendo o peixe, e o peixe
(ó misterioso ser assinalado),
com linguagem dos livros ignorada;
reinventamos o mar para essa ilha
que possui “cabos-não” a ser dobrados
e terras e brasis com boa aguada
para as naves que vão para o oriente.
E demos esse mar às travessias,
e aos mapas-múndi sempre inacabados;
e criamos o convés e o marinheiro
e em torno ao marinheiro a lenda esquiva
que ele quer povoar com seus selvagens.
Empreendemos com a ajuda dos acasos
as travessias nunca projetadas,
sem roteiros, sem mapas e astrolábios
e sem carta a El-Rei contando a viagem.
Bastam velas e dados de jogar
e o salitre nas vigas e o agiológio,
e a fé ardendo em claro, nas bandeiras.
O mais: A meia quilha entre os naufrágios
que tão bastantes varram os pavores.
O mais: Esse farol com o feixe largo
que tão unido varre a embarcação.
Eis o mar: era morto e renasceu.
Eis o mar: era pródigo e o encontrei.
Sua voz? Ó que voz convalescida!
Que lamúrias tão fortes nessas gáveas!
Que coqueiros gemendo em suas palmas!
Que chegar de luares e de redes!
Contemos uma história. Mas que história?
A história mal-dormida de uma viagem.
Jorge de Lima
em Invenção de Orfeu
22.2.05
HEINE
LORELAI
Eu não sei qual o sentido
Dessa tristeza em que estou;
Um conto há tempos ouvido
Da mente não me passou:
“É fresca a brisa. Anoitece,
Vai o Reno manso, a flux;
Ao sol-posto resplandece
O cimo da rocha em luz.
Vê-se bela, reclinada,
Lorelai sobre o arrebol,
Que alisa a trança dourada
Dos seus cabelos de sol.
Ao mover o pente de ouro,
Canta a fada uma canção...
Oh! na voz desse tesouro
Que melodias estão!
Passa o barqueiro nas águas
E, embevecido de a ouvir,
Não sente o risco das fragas,
Olha pr’o céu, a sorrir.
Devora-o a vaga inimiga,
Naufraga o barco, lá vai...
Por causa dessa cantiga,
Por causa de Lorelai.”
Heinrich Heine
trad. de João Ribeiro
Eu não sei qual o sentido
Dessa tristeza em que estou;
Um conto há tempos ouvido
Da mente não me passou:
“É fresca a brisa. Anoitece,
Vai o Reno manso, a flux;
Ao sol-posto resplandece
O cimo da rocha em luz.
Vê-se bela, reclinada,
Lorelai sobre o arrebol,
Que alisa a trança dourada
Dos seus cabelos de sol.
Ao mover o pente de ouro,
Canta a fada uma canção...
Oh! na voz desse tesouro
Que melodias estão!
Passa o barqueiro nas águas
E, embevecido de a ouvir,
Não sente o risco das fragas,
Olha pr’o céu, a sorrir.
Devora-o a vaga inimiga,
Naufraga o barco, lá vai...
Por causa dessa cantiga,
Por causa de Lorelai.”
Heinrich Heine
trad. de João Ribeiro
20.2.05
AMAR A VIDA, AMAR A MORTE
QUARENTA ANOS
A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança.
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
Mário de Andrade
1933
A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar... Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado... Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança.
Oh sono, vem!... Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.
Mário de Andrade
1933
Faltava uma homenagem - que aqui fica - a Mário de Andrade, esse grande brasileiro que sacrificou a própria obra para, ajudando no crescimento e na afirmação de um sem-número de outros poetas e escritores pelo Brasil afora, atualizar a Literatura Brasileira da primeira metade do século passado.
19.2.05
NÃO ME SURPREENDERÁS, ESPERO
Não me surpreenderás, espero, com tuas roçagantes, úmidas
franjas de chuva em argila humildemente exausta.
Sei que estás, e é o bastante; sei que vens, e não digo
senão que te escuto vir e que em tuas passadas
há qualquer coisa assim do pânico da infância
quando alta noite despertávamos e, a qualquer ruído,
tínhamos a impressão de ver surgir terrível
assombração. Que assombração não és, com teu frio e as maneiras
descorteses de arrastar os barcos que se afundam
para outras solidões maiores e mais tristes.
Não, não me surpreenderás. Apenas, nesta hora,
tento apreender cada movimento teu e estou incerto,
inseguro, vendo crescer a sombra e o aflito e intenso
arquejar de um relógio erguido além do tempo.
Alphonsus de Guimaraens Filho
em Absurda Fábula (Novos Poemas)
franjas de chuva em argila humildemente exausta.
Sei que estás, e é o bastante; sei que vens, e não digo
senão que te escuto vir e que em tuas passadas
há qualquer coisa assim do pânico da infância
quando alta noite despertávamos e, a qualquer ruído,
tínhamos a impressão de ver surgir terrível
assombração. Que assombração não és, com teu frio e as maneiras
descorteses de arrastar os barcos que se afundam
para outras solidões maiores e mais tristes.
Não, não me surpreenderás. Apenas, nesta hora,
tento apreender cada movimento teu e estou incerto,
inseguro, vendo crescer a sombra e o aflito e intenso
arquejar de um relógio erguido além do tempo.
Alphonsus de Guimaraens Filho
em Absurda Fábula (Novos Poemas)
18.2.05
A POESIA DOS MODERNISTAS
Para os modernistas, a poesia estava mais no momento que no poema em si, mais na vida que na elaboração codificada de uma arte cansada. O poema era o instrumento para obliquamente captar e com simplicidade revelar a poesia da “vida como ela é”. O poema era um stop para focalizar uma intensidade no tempo de um flash. Focalizar para celebrar, em poetas como Manuel Bandeira, Mário de Andrade. Focalizar o detalhe para dar uma outra visão do real, como na poesia “pau-brasil” de Oswald de Andrade. Focalizar para ironizar a vida e a si mesmo, como em Carlos Drummond. Porém, todos esses poetas acreditavam que algo ficava sempre de fora dessa focalização intensa pela linguagem. O fora da linguagem, o inefável: aquilo que não pode ou não chega a ser dito, embora seja intuído pela sensação e aludido pelo verso. O além da linguagem, o sublime: sensação de grandeza de espírito, de sabedoria elevada, que os modernistas pretendiam atingir pela simplicidade da expressão.
Ítalo Moriconi
em A Poesia Brasileira
do século XX
Ítalo Moriconi
em A Poesia Brasileira
do século XX
17.2.05
JOÃO CABRAL
FORMAS DO NU
1.
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
de seu cuspe privado.
Jamais para velar-se:
e por isso são ralos.
Para enredar os outros
é que usa os enredados.
Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama, autobiográfico.
E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.
2.
Somente na metade
é o aruá couraçado.
Na metade cimento,
na laje do telhado.
Porque apesar do teto
Que o veste pelo alto,
O aruá existe nu,
nu de pele, esfolado.
Sua casa tem teto
mas não tem assoalho:
cai descalça no mangue,
chão também escoriado.
E o morador da casa
se mistura por baixo
com a lama já mucosa:
bicho e chão penetrados.
3.
Que animais prezam o nu
Quanto o burro e o cavalo
(que aliás em Pernambuco
jamais andam calçados).
A sela e a cangalha
deixam-nos sufocados
como se respirassem
também pelos costados.
É vê-los se espojar
na escova má do pasto
quando lhes tiram o arreio
e os soltam no cercado:
se espojando, têm todos
os gestos de asfixiado:
espasmos, estertores
de asmático e afogado.
4.
O homem é o animal
mais vestido e calçado.
Primeiro, a pano e feltro
se isola do ar abraço.
Depois, a pedra e cal,
de paredes trajado,
se defende do abismo
horizontal do espaço.
Para evitar a terra,
calça nos pés sapatos,
nos sapatos, tapetes,
e nos tapetes, soalhos.
Calça as ruas: e como
não pode todo o mato,
para andar nele estende
passadeiras de asfalto.
João Cabral de Melo Neto
1.
A aranha passa a vida
tecendo cortinados
com o fio que fia
de seu cuspe privado.
Jamais para velar-se:
e por isso são ralos.
Para enredar os outros
é que usa os enredados.
Ela sabe evitar
que a enrede seu trabalho,
mesmo se, dela mesma,
o trama, autobiográfico.
E em muito menos tempo
que tomou em tramá-lo,
o véu que não a velou
aí deixa, abandonado.
2.
Somente na metade
é o aruá couraçado.
Na metade cimento,
na laje do telhado.
Porque apesar do teto
Que o veste pelo alto,
O aruá existe nu,
nu de pele, esfolado.
Sua casa tem teto
mas não tem assoalho:
cai descalça no mangue,
chão também escoriado.
E o morador da casa
se mistura por baixo
com a lama já mucosa:
bicho e chão penetrados.
3.
Que animais prezam o nu
Quanto o burro e o cavalo
(que aliás em Pernambuco
jamais andam calçados).
A sela e a cangalha
deixam-nos sufocados
como se respirassem
também pelos costados.
É vê-los se espojar
na escova má do pasto
quando lhes tiram o arreio
e os soltam no cercado:
se espojando, têm todos
os gestos de asfixiado:
espasmos, estertores
de asmático e afogado.
4.
O homem é o animal
mais vestido e calçado.
Primeiro, a pano e feltro
se isola do ar abraço.
Depois, a pedra e cal,
de paredes trajado,
se defende do abismo
horizontal do espaço.
Para evitar a terra,
calça nos pés sapatos,
nos sapatos, tapetes,
e nos tapetes, soalhos.
Calça as ruas: e como
não pode todo o mato,
para andar nele estende
passadeiras de asfalto.
João Cabral de Melo Neto
15.2.05
DRUMMOND
LEGADO
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Carlos Drummond de Andrade
em Claro Enigma
Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri.
E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.
Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.
De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.
Carlos Drummond de Andrade
em Claro Enigma
13.2.05
BANDEIRA CONTA BANDEIRA
Na casa de Laranjeiras, onde moramos os seis anos que cursei o Externato do Ginásio Nacional, hoje Pedro II, nunca faltava o pão, mas a luta era dura. E eu desde logo tomei parte nela, como intermediário entre minha mãe e os fornecedores – vendeiro, açougueiro, quitandeiro, padeiro. Nunca brinquei com os moleques da rua, mas impregnei-me a fundo do realismo da gente do povo. Jamais me esqueci das palavras com que certo caixeiro de venda português deu notícias de um companheiro que não era visto havia algum tempo: “O seu Alberto está com os pulmões podres.”
Essa influência da fala popular contrabalançava a da minha formação no Ginásio, onde em matéria de linguagem eu me deixava assessorar por meu colega Sousa da Silveira, naquele tempo todo voltado para a lição dos clássicos portugueses.
Desde o primeiro ano tivéramos a fortuna de contar entre os nossos mestres o professor Silva Ramos. Não repetirei aqui o que já disse do melhor modo que pude nas Crônicas da Província do Brasil. A Silva Ramos e a Sousa da Silveira devo o gosto que tomei a Camões, cujos principais episódios de Os Lusíadas eu sabia de cor e declamava em casa para mim mesmo com grande ênfase. O que ainda hoje lamento é não ter tomado então conhecimento da lírica do maior poeta de nosso idioma. Do Camões lírico apenas sabia o que vinha nas antologias escolares, especialmente na que era adotada no Ginásio, a de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Eis outro livro que fez as delícias de minha meninice e de certo modo me iniciou na literatura de minha língua. Antes dos parnasianos a cantata “Dido”, de Garção (meu pai fez-me decorá-la), já me dera a emoção da forma pela forma, e era com verdadeiro deleite que eu repetia certos versos de beleza puramente verbal: E nas douradas grimpas / Das cúpulas soberbas / Piam noturnas agoureiras aves... E mais adiante: De roxas espadanas rociadas / Tremem da sala as dóricas colunas...
Manuel Bandeira
em Itinerário de Pasárgada
11.2.05
AGORA É CINZA Ô / TUDO ACABADO / E NADA MAIS...
SONETO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer, de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Vinícius de Moraes
Rio, 1941.
SONETO DE CARNAVAL
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Vinícius de Moraes
Oxford, Carnaval de 1939.
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer, de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Vinícius de Moraes
Rio, 1941.
SONETO DE CARNAVAL
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Vinícius de Moraes
Oxford, Carnaval de 1939.
10.2.05
CARNAVAL COM BANDEIRA - FIM
POEMA DE UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS
Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça...
O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,
Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
EPÍLOGO
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...
Quando o acabei, - a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
- O meu carnaval sem nenhuma alegria!...
Manuel Bandeira
1919 Carnaval 1919.
Entre a turba grosseira e fútil
Um Pierrot doloroso passa.
Veste-o uma túnica inconsútil
Feita de sonho e de desgraça...
O seu delírio manso agrupa
Atrás dele os maus e os basbaques.
Este o indigita, este outro o apupa...
Indiferente a tais ataques,
Nublada a vista em pranto inútil,
Dolorosamente passa.
Veste-o uma túnica inconsútil,
Feita de sonho e de desgraça...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
EPÍLOGO
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...
Quando o acabei, - a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
- O meu carnaval sem nenhuma alegria!...
Manuel Bandeira
1919 Carnaval 1919.
CARNAVAL COM BANDEIRA VI
SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores da fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas, - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas!
E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso!
Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores da fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes – Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas, - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba, ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.
Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
- A profunda, a silenciosa alegria...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
9.2.05
CARNAVAL COM BANDEIRA V
RONDÓ DE COLOMBINA
De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... – Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
Manuel Bandeira
1913 Carnaval 1919.
O DESCANTE DE ARLEQUIM
A lua ainda não nasceu.
A escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos.
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... – Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
Manuel Bandeira
1913 Carnaval 1919.
O DESCANTE DE ARLEQUIM
A lua ainda não nasceu.
A escuridão propícia aos furtos,
Propícia aos furtos, como o meu,
De amores frívolos e curtos,
Estende o manto alcoviteiro
À cuja sombra, se quiseres,
A mais ardente das mulheres
Terá o seu único parceiro.
Ei-lo. Sem glória e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos.
Eu, nesta veste de retalhos,
Sou tudo quanto te convém.
Não se me dá do teu recato.
Antes, polido pelo vício,
Sou fácil, acomodatício,
Agora beijo, agora bato,
Que importa? Ao menos o teu ser
Ao meu anélito corruto
Esquecerá por um minuto
O pesadelo de viver.
E eu, vagabundo sem idade,
Contra a moral e contra os códigos,
Dar-te-ei entre os meus braços pródigos
Um momento de eternidade...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
8.2.05
CARNAVAL COM BANDEIRA IV
PIERRETTE
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vagalumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
Manuel Bandeira
em Carnaval.
1919.
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vagalumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
Manuel Bandeira
em Carnaval.
1919.
PIERROT MÍSTICO
Torna a meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca.
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minhalma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minhalma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
Manuel Bandeira
em Carnaval
1919.
Torna a meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus abraços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionisíaca!
Por mim desamo a posse brusca.
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minhalma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minhalma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...
Manuel Bandeira
em Carnaval
1919.
CARNAVAL COM BANDEIRA III
ARLEQUINADA
Que idade tens, Colombina?
Será a idade que pareces?...
Tivesses a que tivesses!
Tu para mim és menina.
Que exíguo o teu talhe! E penso:
Cambraia pouca precisa:
Pode ser toda numa lenço
Cortada a tua camisa...
Teus seios têm treze anos.
Dão os dois uma mancheia...
E essa inocência incendeia,
Faz cinza de desenganos...
O teu pequenino queixo
- Símbolo do teu capricho –
É dele que mais me queixo,
Que por ele assim me espicho!
Tua cabeleira rara
Também ela é de criança:
Dará uma escassa trança,
Onde eu mal me estrangulara!
E que direi do franzino,
Do breve pé de menina?...
Seria o mais pequenino
No jogo da pampolina...
Infantil é o teu sorriso.
A cabeça, essa é de vento:
Não sabe o que é pensamento
E jamais terá juízo...
Crês tu que os recém-nascidos
São achados entre as couves?...
Mas vejo que os teus ouvidos
Ardem... Finges que não ouves...
Perdão, perdão, Colombina!
Perdão, que me deu na telha
Cantar em medida velha
Teus encantos de menina...
Manuel Bandeira
Juiz de Fora, 1918
em Carnaval
Que idade tens, Colombina?
Será a idade que pareces?...
Tivesses a que tivesses!
Tu para mim és menina.
Que exíguo o teu talhe! E penso:
Cambraia pouca precisa:
Pode ser toda numa lenço
Cortada a tua camisa...
Teus seios têm treze anos.
Dão os dois uma mancheia...
E essa inocência incendeia,
Faz cinza de desenganos...
O teu pequenino queixo
- Símbolo do teu capricho –
É dele que mais me queixo,
Que por ele assim me espicho!
Tua cabeleira rara
Também ela é de criança:
Dará uma escassa trança,
Onde eu mal me estrangulara!
E que direi do franzino,
Do breve pé de menina?...
Seria o mais pequenino
No jogo da pampolina...
Infantil é o teu sorriso.
A cabeça, essa é de vento:
Não sabe o que é pensamento
E jamais terá juízo...
Crês tu que os recém-nascidos
São achados entre as couves?...
Mas vejo que os teus ouvidos
Ardem... Finges que não ouves...
Perdão, perdão, Colombina!
Perdão, que me deu na telha
Cantar em medida velha
Teus encantos de menina...
Manuel Bandeira
Juiz de Fora, 1918
em Carnaval
6.2.05
CARNAVAL COM BANDEIRA
VULGÍVAGA
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...
Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.
Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos, - o orgulho.
Estes, caçôo-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...
Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...
E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Manuel Bandeira
em Carnaval.
1919.
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...
Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.
Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos, - o orgulho.
Estes, caçôo-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...
Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...
E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Manuel Bandeira
em Carnaval.
1919.
5.2.05
CARNAVAL I
BACANAL
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhada em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!
Manuel Bandeira
1918 Carnaval 1919
A CANÇÃO DAS LÁGRIMAS DE PIERROT
I
A sala em espelhos brilha
Com lustros de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores – maravilha! –
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangüentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
- Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
- “Negaste a pele macia
“À minha linda paixão!
“E irás entregá-la um dia
“Aos feios vermes do chão...
“Fiz por ver se te podia
“Amolecer, - e não pude!
“Em vão pela noite fria
“Devasto o meu alaúde...
“Minha paz, minha alegria,
“Minha coragem, roubaste-mas...
“E hoje a minhalma sombria
“É como um poço de lástimas...”
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez do beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!
Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhada em doudo assomo...
Evoé Momo!
Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
- Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!
O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!
A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos.
Evoé Vênus!
Manuel Bandeira
1918 Carnaval 1919
A CANÇÃO DAS LÁGRIMAS DE PIERROT
I
A sala em espelhos brilha
Com lustros de dez mil velas.
Miríades de rodelas
Multicores – maravilha! –
Torvelinham no ar que alaga
O cloretilo e se toma
Daquele mesclado aroma
De carnes e de bisnaga.
E rodam mais que confete,
Em farândolas quebradas,
Cabeças desassisadas
Por Colombina ou Pierrette.
II
Pierrot entra em salto súbito.
Upa! Que força o levanta?
E enquanto a turba se espanta,
Ei-lo se roja em decúbito.
A tez, antes melancólica,
Brilha. A cara careteia.
Canta. Toca. E com tal veia,
Com tanta paixão diabólica,
Tanta, que se lhe ensangüentam
Os dedos. Fibra por fibra,
Toda a sua essência vibra
Nas cordas que se arrebentam.
III
Seu alaúde de plátano
Milagre é que não se quebre.
E a sua fronte arde em febre,
- Ai dele! e os cuidados matam-no.
Ai dele! que essa alegria,
Aquelas canções, aquele
Surto não é mais, ai dele!
Do que uma imensa ironia.
Fazendo à cantiga louca
Dolorido contracanto,
Por dentro borbulha o pranto
Como outra voz de outra boca:
IV
- “Negaste a pele macia
“À minha linda paixão!
“E irás entregá-la um dia
“Aos feios vermes do chão...
“Fiz por ver se te podia
“Amolecer, - e não pude!
“Em vão pela noite fria
“Devasto o meu alaúde...
“Minha paz, minha alegria,
“Minha coragem, roubaste-mas...
“E hoje a minhalma sombria
“É como um poço de lástimas...”
V
Corre após a amada esquiva.
Procura o precário ensejo
De matar o seu desejo
Numa carícia furtiva.
E encontrando-o Colombina,
Se lhe dá, lesta, à socapa,
Em vez do beijo uma tapa,
O pobre rosto ilumina-se-lhe!...
Ele que estava de rastros,
Pula, e tão alto se eleva,
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!...
Manuel Bandeira
em Carnaval. 1919.
4.2.05
ABC DA LITERATURA
Para começar do começo, vocês provavelmente sabem que há uma linguagem falada e uma linguagem escrita, e que há duas espécies de linguagem escrita, uma baseada no som e outra na vista.
Falamos a um animal com uma meia-dúzia de ruídos e gestos simples. O relato de Lévy-Bruhl sobre as línguas primitivas da África assinala linguagens que ainda se acham presas à mímica e ao gesto.
Os egípcios acabaram por usar figuras abreviadas para representar sons, mas os chineses ainda usam figuras abreviadas COMO figuras, isto é, o ideograma chinês não tenta ser a imagem de um som ou um signo escrito que relembre um som, mas é ainda o desenho de uma coisa; de uma coisa em uma dada posição ou relação, ou de uma combinação de coisas. O ideograma significa a coisa, ou a ação ou situação ou qualidade, pertinente às diversas coisas que ele configura.
Gaudier-Brzeska (1891 – 1915, escultor franco-polonês, amigo de Pound, participante, como ele e Wyndham Lewis, do Vorticismo, movimento de vanguarda do início do século na Inglaterra), que estava acostumado a olhar para a forma real das coisas, podia ler uma certa porção da escrita chinesa SEM QUALQUER ESTUDO. Ele dizia: “Mas é claro, a gente vê logo que é um cavalo” (ou uma asa ou o que quer que fosse).
Ezra Pound
em Abc da Literatura
Falamos a um animal com uma meia-dúzia de ruídos e gestos simples. O relato de Lévy-Bruhl sobre as línguas primitivas da África assinala linguagens que ainda se acham presas à mímica e ao gesto.
Os egípcios acabaram por usar figuras abreviadas para representar sons, mas os chineses ainda usam figuras abreviadas COMO figuras, isto é, o ideograma chinês não tenta ser a imagem de um som ou um signo escrito que relembre um som, mas é ainda o desenho de uma coisa; de uma coisa em uma dada posição ou relação, ou de uma combinação de coisas. O ideograma significa a coisa, ou a ação ou situação ou qualidade, pertinente às diversas coisas que ele configura.
Gaudier-Brzeska (1891 – 1915, escultor franco-polonês, amigo de Pound, participante, como ele e Wyndham Lewis, do Vorticismo, movimento de vanguarda do início do século na Inglaterra), que estava acostumado a olhar para a forma real das coisas, podia ler uma certa porção da escrita chinesa SEM QUALQUER ESTUDO. Ele dizia: “Mas é claro, a gente vê logo que é um cavalo” (ou uma asa ou o que quer que fosse).
Ezra Pound
em Abc da Literatura
3.2.05
ET VIVE LA FRANCE!
DÉMOCRATIE
“Le drapeau va au paysage immonde, et notre patois étouffe le tambour.
“Aux centres nous alimenterons la plus cynique prostitution. Nous massacrerons les révoltes logiques.
“Aux pays poivrés et détrempés! – au service des plus monstrueuses exploitations industrielles ou militaires.
“Au revoir ici, n’importe où. Conscrits du bom vouloir, nous aurons la philosophie féroce; ignorants pour la science, roués pour le confort; la crevaison pour le monde qui va. C’est la vraie marche. En avant, route!”
Jean-Arthur Rimbaud
Illuminations.
DEMOCRACIA
“A bandeira reflete a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
“Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
“Às terras aromáticas e dóceis! – ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
“Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotados para o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!”
tradução de Mário Cesariny
“Le drapeau va au paysage immonde, et notre patois étouffe le tambour.
“Aux centres nous alimenterons la plus cynique prostitution. Nous massacrerons les révoltes logiques.
“Aux pays poivrés et détrempés! – au service des plus monstrueuses exploitations industrielles ou militaires.
“Au revoir ici, n’importe où. Conscrits du bom vouloir, nous aurons la philosophie féroce; ignorants pour la science, roués pour le confort; la crevaison pour le monde qui va. C’est la vraie marche. En avant, route!”
Jean-Arthur Rimbaud
Illuminations.
DEMOCRACIA
“A bandeira reflete a paisagem imunda e a nossa gíria abafa o som do tambor.
“Nos centros alimentaremos a mais cínica prostituição. Massacraremos as revoltas lógicas.
“Às terras aromáticas e dóceis! – ao serviço das mais monstruosas explorações industriais ou militares.
“Até mais ver!, não importa onde. Recrutas do próprio querer, teremos a filosofia feroz; inaptos para a ciência, esgotados para o conforto; e que os outros rebentem. Este é o caminho. Em frente, marcha!”
tradução de Mário Cesariny
2.2.05
1.2.05
HOJE É DIA DE FESTA
Cantarte hei, Galicia,
teus dulces cantares,
que así mo pediron
na beira do mare.
Cantarte hei, Galicia,
na lengua gallega,
consolo dos males,
alivio das penas.
Mimosa, soave,
sentida, queixosa,
encanta si ríe,
conmove si chora.
Cal ela ninguna
tan dose que cante
soidades amargas,
sospiros amantes,
misterios da tarde,
murmuxos da noite:
cantarte hei, Galicia,
na beira das fontes.
Que así mo pediron,
que así mo mandaron,
que cante e que cante
na lengua que eu falo.
Que así mo mandaron,
que así mo dixeron...
Rosalía de Castro
em A rosa dos claustros
edição bilíngüe
tradução e notas de Andityas Soares de Moura
Crisálida. Belo Horizonte. 2004.
teus dulces cantares,
que así mo pediron
na beira do mare.
Cantarte hei, Galicia,
na lengua gallega,
consolo dos males,
alivio das penas.
Mimosa, soave,
sentida, queixosa,
encanta si ríe,
conmove si chora.
Cal ela ninguna
tan dose que cante
soidades amargas,
sospiros amantes,
misterios da tarde,
murmuxos da noite:
cantarte hei, Galicia,
na beira das fontes.
Que así mo pediron,
que así mo mandaron,
que cante e que cante
na lengua que eu falo.
Que así mo mandaron,
que así mo dixeron...
Rosalía de Castro
em A rosa dos claustros
edição bilíngüe
tradução e notas de Andityas Soares de Moura
Crisálida. Belo Horizonte. 2004.
30.1.05
EM LÍNGUA DE GENTE...
O Corvo
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”
Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós – ou senhor ou senhora –
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse, a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado
Calado fica; a quietação, quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais.”
Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo – o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: “Nunca mais.”
No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente”, digo eu, “essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: Nunca mais.”
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais.”
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “ Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: “Existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”
“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
Edgar Allan Poe
tradução de Machado de Assis
Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará mais.
E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”
Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós – ou senhor ou senhora –
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse, a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.
Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado
Calado fica; a quietação, quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.
Entro co’a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais.”
Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo – o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: “Nunca mais.”
No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente”, digo eu, “essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: Nunca mais.”
Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E, mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera,
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais.”
Assim posto, devaneando,
Meditando, conjecturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “ Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: “Existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”
“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o Corvo disse: “Nunca mais.”
E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!
Edgar Allan Poe
tradução de Machado de Assis
29.1.05
28.1.05
ABC DA LITERATURA
Na Idade Média, quando não havia nenhuma ciência material, tal como agora a entendemos, quando o conhecimento humano não podia fazer com que automóveis rodassem ou a eletricidade carregasse a linguagem através do ar, etc. etc., em suma, quando o saber consistia em pouco mais do que discriminação terminológica, havia uma grande preocupação com a terminologia, e a exatidão geral no emprego de termos abstratos pode ter sido (provavelmente foi) maior.
O que quero dizer é que um teólogo medieval tinha o cuidado de não definir um cachorro em termos que servissem para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou à sua pele ou ao barulho que ele faz quando bebe água; mas todos os seus professores dirão a vocês que a ciência se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenômenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e começaram a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos (como o telescópio) para vê-las melhor.
O mais útil dentre os membros vivos da família Huxley acentuou o fato de que o telescópio não era apenas uma idéia, mas, definitivamente, uma realização técnica.
Em contraste com o método da abstração ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genéricos, Fenollosa encarece o método da ciência, “que é o método da poesia”, distinto do método da “discussão filosófica”, e que é o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas.
Ezra Pound
em ABC da Literatura
O que quero dizer é que um teólogo medieval tinha o cuidado de não definir um cachorro em termos que servissem para se aplicar igualmente ao dente do cachorro ou à sua pele ou ao barulho que ele faz quando bebe água; mas todos os seus professores dirão a vocês que a ciência se desenvolveu mais rapidamente depois que Bacon sugeriu o exame direto dos fenômenos e depois que Galileu e outros cessaram de discutir as coisas em excesso e começaram a olhar realmente para elas e a inventar instrumentos (como o telescópio) para vê-las melhor.
O mais útil dentre os membros vivos da família Huxley acentuou o fato de que o telescópio não era apenas uma idéia, mas, definitivamente, uma realização técnica.
Em contraste com o método da abstração ou de definir as coisas em termos sucessivamente mais e mais genéricos, Fenollosa encarece o método da ciência, “que é o método da poesia”, distinto do método da “discussão filosófica”, e que é o meio de que se servem os chineses em sua ideografia ou escrita de figuras abreviadas.
Ezra Pound
em ABC da Literatura
27.1.05
THOMAS HARDY
ACASO
Se ao menos do alto me chamasse um deus
De ódio, e risse:”Ó homem coisa-dor,
Teu sofrimento é o júbilo dos céus,
Teu deve-amor é o meu haver-rancor”,
Eu me conformaria, indo ao extremo
De não dobrar-me, réu de juiz verdugo,
Mas orgulhoso que um poder supremo
Me obrigasse a gemer sob o seu jugo.
Mas não. Mal nata, a Alegria já é Morte,
E num ofego a Esperança se afoga;
Brinca de sol e chuva o tempo, e joga
Dados trocados com meu crepe a Sorte.
Tais juízes viciados são bem loucos:
Condenam-me a viver, mas pouco, e aos poucos.
Thomas Hardy
tradução de Décio Pignatari
Se ao menos do alto me chamasse um deus
De ódio, e risse:”Ó homem coisa-dor,
Teu sofrimento é o júbilo dos céus,
Teu deve-amor é o meu haver-rancor”,
Eu me conformaria, indo ao extremo
De não dobrar-me, réu de juiz verdugo,
Mas orgulhoso que um poder supremo
Me obrigasse a gemer sob o seu jugo.
Mas não. Mal nata, a Alegria já é Morte,
E num ofego a Esperança se afoga;
Brinca de sol e chuva o tempo, e joga
Dados trocados com meu crepe a Sorte.
Tais juízes viciados são bem loucos:
Condenam-me a viver, mas pouco, e aos poucos.
Thomas Hardy
tradução de Décio Pignatari
22.1.05
EX ORIENTE
MENTE E ESPÍRITO
Nossas idéias vagabundas
vão pelos muitos caminhos do homem:
o mecânico pensa em acidentes
o médico em aleijados
o sacerdote em doações
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
*
Sou cantora, meu pai é médico,
minha mãe mói o grão na mó.
Só pensamos numa boa grana
e mourejamos como escravos.
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
*
O cavalo prefere a carroça ligeira
O animador uma boa risada
O pênis busca a greta peluda
A rã uma lagoa calma:
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
Hinos do Rigveda (século XVI a.C.)
tradução de Décio Pignatari
em 3l Poetas, 214 Poemas
do Rigveda e Safo a Apollinaire
Companhia das Letras. São Paulo.
1997.
Nossas idéias vagabundas
vão pelos muitos caminhos do homem:
o mecânico pensa em acidentes
o médico em aleijados
o sacerdote em doações
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
*
Sou cantora, meu pai é médico,
minha mãe mói o grão na mó.
Só pensamos numa boa grana
e mourejamos como escravos.
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
*
O cavalo prefere a carroça ligeira
O animador uma boa risada
O pênis busca a greta peluda
A rã uma lagoa calma:
A bem do Espírito, ó Mente,
deixe de idéias ociosas.
Hinos do Rigveda (século XVI a.C.)
tradução de Décio Pignatari
em 3l Poetas, 214 Poemas
do Rigveda e Safo a Apollinaire
Companhia das Letras. São Paulo.
1997.
19.1.05
CARPE DIEM
Não buscarás, saber é proibido, ó Leucônoe,
que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
nem mesmo os babilônios números perscrutes...
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
quer venha a conceder apenas este último,
que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
de muito longa, faz caber em curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o dia de hoje e não te fies nunca,
um momento sequer, no dia de amanhã...
Quinto Horácio Flaco
tradução de Ariovaldo Augusto Peterlini
Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem Di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati!
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Thyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.
Quintus Horatius Flaccus
65 – 8 a. C.
que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
nem mesmo os babilônios números perscrutes...
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
quer venha a conceder apenas este último,
que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
de muito longa, faz caber em curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o dia de hoje e não te fies nunca,
um momento sequer, no dia de amanhã...
Quinto Horácio Flaco
tradução de Ariovaldo Augusto Peterlini
Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem Di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. Vt melius quicquid erit pati!
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Thyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.
Quintus Horatius Flaccus
65 – 8 a. C.
16.1.05
O POETA IRMÃO
Cinqüenta anos: espelho d’água ou névoa? Tudo límpido,
ou o tempo corrói o incalculável tesouro?
Vem do abismo de cinqüenta anos, gravura em talho-doce,
a revelação de Emílio Moura.
Era tempo de escolha. Escolha em silêncio, definitiva.
Na rua, no bar, nossos companheiros esperam ser decifrados.
Mas o sinal os distingue. Descubro, e para sempre
A amizade de Emílio Moura.
Carlos Drummond de Andrade
ou o tempo corrói o incalculável tesouro?
Vem do abismo de cinqüenta anos, gravura em talho-doce,
a revelação de Emílio Moura.
Era tempo de escolha. Escolha em silêncio, definitiva.
Na rua, no bar, nossos companheiros esperam ser decifrados.
Mas o sinal os distingue. Descubro, e para sempre
A amizade de Emílio Moura.
Carlos Drummond de Andrade
EMÍLIO MOURA
SONETO
O que dói em tudo isso não é tanto
a rosa não ser rosa, e a estrela, estrela:
não é que haja no riso algo de pranto,
e amar a vida à força de perdê-la.
Amor – engano de um que se procura,
no que, ávido e cego, já criara.
Nem é isso o que dói. Força tão pura,
amor se inventa, inventa, e já não pára.
Não pára. Inventa e, múltiplo, se inventa,
tanto o amado se mira e se imagina
no que é ledo inventar que se acalenta.
O que dói é a certeza de que tudo
mais se banha em beleza, se termina,
e, ao ter algo a dizer-nos, fica mudo.
Emílio Moura
em Itinerário Poético
Poemas Reunidos.
Belo Horizonte. 1969.
O que dói em tudo isso não é tanto
a rosa não ser rosa, e a estrela, estrela:
não é que haja no riso algo de pranto,
e amar a vida à força de perdê-la.
Amor – engano de um que se procura,
no que, ávido e cego, já criara.
Nem é isso o que dói. Força tão pura,
amor se inventa, inventa, e já não pára.
Não pára. Inventa e, múltiplo, se inventa,
tanto o amado se mira e se imagina
no que é ledo inventar que se acalenta.
O que dói é a certeza de que tudo
mais se banha em beleza, se termina,
e, ao ter algo a dizer-nos, fica mudo.
Emílio Moura
em Itinerário Poético
Poemas Reunidos.
Belo Horizonte. 1969.
15.1.05
CHOVE NELA GRAÇA TANTA...
Sobre o belo poema de Camões, num apanhado geral, fala o meu velho mestre na Faculdade de Letras da UFMG, Prof. Dr. Manuel Rodrigues Lapa: “Os três primeiros versos constituem um mote tradicional, que nos representa a figura duma bela rapariga a caminho da fonte, ponto ainda hoje dos namoros da aldeia. Sobre esse tema inicial, desenha o poeta um vilancete formosíssimo: “vemos” a moça graciosa, mancha colorida de branco, oiro e vermelho, deslizando com pés nus por entre a verdura do prado.”
E sobre o trecho “vai fermosa e não segura”: “lindo e malicioso verso, que aponta para o perigo a que se expõe a extrema formosura.”
Clareando o sentido do passo “Descobre a touca a garganta, / cabelos de ouro entrançado / fita de cor de encarnado”: “Entenda-se: “e uma fita encarnada descobre as tranças do cabelo loiro”.
O último comentário do Mestre, este sobre o “chove” do antepenúltimo verso: “Bela imagem a que nos fornece este verbo chover, que nos dá ao mesmo tempo uma idéia de abundância e de origem celestial.”
Quanto ao vocabulário, chamalote era antigamente um pano grosso; vasquinha, uma saia pregueada em volta da cintura; de cote = de uso diário, cotidiano.
Testo (ê), informa o Aurélio, é tampa de barro ou de ferro para vasilhas. No texto, a tampa, levada nas mãos, do pote, que ia à cabeça.
E sobre o trecho “vai fermosa e não segura”: “lindo e malicioso verso, que aponta para o perigo a que se expõe a extrema formosura.”
Clareando o sentido do passo “Descobre a touca a garganta, / cabelos de ouro entrançado / fita de cor de encarnado”: “Entenda-se: “e uma fita encarnada descobre as tranças do cabelo loiro”.
O último comentário do Mestre, este sobre o “chove” do antepenúltimo verso: “Bela imagem a que nos fornece este verbo chover, que nos dá ao mesmo tempo uma idéia de abundância e de origem celestial.”
Quanto ao vocabulário, chamalote era antigamente um pano grosso; vasquinha, uma saia pregueada em volta da cintura; de cote = de uso diário, cotidiano.
Testo (ê), informa o Aurélio, é tampa de barro ou de ferro para vasilhas. No texto, a tampa, levada nas mãos, do pote, que ia à cabeça.
14.1.05
CAMÕES
Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura:
vai fermosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote
mais branca que a neve pura:
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro entrançado
fita de cor de encarnado;
tão linda, que o mundo espanta,
chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura:
vai fermosa e não segura.
Luís de Camões
em Líricas
seleção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa
Livraria Sá da Costa. Lisboa. 10. ed. 1981.
Leonor, pela verdura:
vai fermosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote
mais branca que a neve pura:
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro entrançado
fita de cor de encarnado;
tão linda, que o mundo espanta,
chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura:
vai fermosa e não segura.
Luís de Camões
em Líricas
seleção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa
Livraria Sá da Costa. Lisboa. 10. ed. 1981.
13.1.05
PRAZER DE CANTAR
EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
em Cancioneiro
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
DO RITUAL DO GRAU DE MESTRE DO ÁTRIO NA ORDEM TEMPLÁRIA DE PORTUGAL
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
em Cancioneiro
IMPERADOR DA POESIA PORTUGUESA
Até morrer, a influência de Fernando Pessoa quase só se fez sentir num círculo estreito de admiradores; a partir da atribuição de um discutido meio-prêmio oficial à Mensagem (1934), surgem as correntes contraditórias de admiração; quando o velho companheiro Luís de Montalvor inicia em 1943 a publicação das suas Obras Completas, em 9 vols., Fernando Pessoa torna-se o mais imitado dos nossos poetas modernos. Esta generalização da sua influência explica-se pelo fato de Pessoa ter exprimido penetrantemente certas contradições inerentes à sua camada numa altura em que elas estavam ainda latentes, porque ainda se fingia acreditar em certas sinceridades ou sentimentos literariamente expressos, em certos ideais ou emoções retoricamente caritativos ou cívicos que, no fundo, se haviam esvaziado de qualquer verdade concreta e íntima. Na sua poesia tudo isso se ironiza e problematiza com uma justeza inexcedível de tom lírico, porque Pessoa opõe-se à metafísica sentimentalista romântica, que abstrai a sensibilidade da razão: “o que em mim sente está pensando”.
Antônio José Saraiva e Óscar Lopes
em História da Literatura Portuguesa
Martins Fontes.
Antônio José Saraiva e Óscar Lopes
em História da Literatura Portuguesa
Martins Fontes.

















